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sexta-feira, 10 de junho de 2011

Acabou o milho, acabou a pipoca!

O texto abaixo, transcrito na íntegra, é de autoria de Alessandro Barreto, nosso querido Barretinho. É uma grande viagem no tempo, relembrando a Macaé de nossa infância e adolescência. Quem o enviou foi Carlos "Cacá Kilha" Alberto. Valeu Cacá!!!

Vamos esquecer por enquanto a política e economia que é o meu forte. Quem está na casa dos “enta” quarenta ou cinqüenta anos muito bem vividos, e macaense da gema poderá relembrar várias coisas da nossa velha Macaé, da década de 70 onde todos se conheciam e se divertiam sem medo dessa violência que assola todo o país hoje em dia.

De segunda feira a sexta era só estudar na parte da manhã no antigo Colégio Caetano Dias, no final de semana era diferente, aos domingos sempre tinha uma pelada para jogar bola, antigamente em frente ao Macaé Shopping existia um campinho de futebol que se chamava campo do carrapato, onde os carroceiros, como Sr. Almir, carroceiro pai de Pulguinha, colocava seus cavalos para pastarem, e assim vivia cheio de carrapatos. Todo mundo que jogava bola no local saía cheio de carrapatos pelo corpo, mas valia a pena.

Perto da rodoviária na antiga concessionária da Fiat, existia o campo do Radar, antiga concessionária Volkswagen do Sr. Rui Borges, lá só os feras jogavam bola. Onde hoje é o Supermercado Extra tinha um campo de futebol que se chamava Ernestão, e tinha o campo do Nacional na Aroeira, em frente a atual Guarda Municipal.

Antigo campo da Radar em frente à Destilaria.

Atrás do Colégio Caetano Dias tinha o campinho do Caixote, que a sociedade macaense dizia ser perigoso, pois, só tinham “Maus Elementos” os maconheiros com eram conhecidos os freqüentadores desse campo de futebol. Aos sábados todos iam para praia da Imbetiba, onde existia o primeiro trampolim, para quem era menos experiente, o segundo trampolim e o terceiro que era o mais alto e tinha que ter disposição para saltar. Tinha uma figura cativa, um negro que era conhecido por Fio, tinha 1,80m de altura e sempre com a sua sunga cor de abóbora e quando saltava cruzava os braços com as mãos tremendo até juntá-las, o público delirava com suas acrobacias.

O Sr. Renato que morava na pracinha do Lions na Imbetiba sempre levava as suas três filhas, a mais velha chamava-se Ana Helena, as três meninas davam um show, pois, todas saltavam do temido e perigoso terceiro trampolim. Os meninos morriam de inveja, ai dos meninos que não saltassem,eram chamados gays. Mas quem tinha mais disposição mesmo saltavam do paredão do Rodrigo, onde existe até hoje e situa-se dentro da Petrobrás, era o mais perigoso, pois o corpo passava menos de 50 cm da pedra.

Os três tranpolins na Praia de Imbetiba.

Existia o Bar do Mocambo, onde a velha malandragem macaense tocava velhos sambas e pagodes, paravam ônibus de outras cidades para altas rodas de samba e sempre saía uma briga. Nesses mesmos domingos a noite sempre tinha um baile no grêmio do antigo SENAI onde os garotos se encontravam na casa de Jorge Dadá, para a concentração.

Praia de Imbetiba com o Bar Mokambo por sobre as árvores no alto, à direita.

Domingo também tinha no Cine Clube a sessão de matinê com desenhos animados, que começavam sempre ás 16h. A garotada aproveitava o descuido do lanterninha Sr. João de Deus, para dar uns amassos nas meninas. Depois veio outro lanterninha, mas durão o Alfrelídio que trabalha no Sindicato dos Bancários de Macaé. Mas antes de ir para o Cine Clube para assistir a matinê, era de lei passar na Sorveteria Sorriso do Sr. Alécio Balzana, que seu filho Aluízio o ajudava. Tinha um pão de batata com queijo e presunto, e uma banana split deliciosa feito com carinho por Tonico, Tiãozinho seu irmão Antônio e Hippe, o primeiro time da Sorriso. Mas tarde, veio o Marcelino que trabalhou no Banco Itaú.

Programação do Cine Clube Macaé, distribuída na portaria do cinema.

Antes da matinê no Cine Clube, Sorveteria Sorriso,depois íamos para o Lar de Maria,comer pizza com caldo de cana e na volta passávamos na Praça Veríssimo de Mello para andarmos no pistorama, nos carrinhos que hoje chamamos de kart. Nos finais de semana a noite era passar no bar Amarelinho em frente a Praça Veríssimo de Mello, que depois passou a chamar-se CAÍQUE comandados pelo Paulo e sua linda esposa Sandra, depois ao Locanda que hoje em dia existe um curso de inglês de um casal de Italianos. Nesse mesmo local, funcionou mais tarde a famosa Casa do Chocolate dos comerciantes Vasco e sua esposa Vânia, depois para bar Wanda do grande amigo e artista plástico Rui Jorge o “JOJÓ” onde se bebia o famoso caju amigo, cachaça acompanhada de um suco de caju, fora a deliciosa cocada de côco com leite condensado feita com amor e carinho por Mariza.

Na Imbetiba chegamos a inventar o baixo Imbetiba, onde o Renato e o Gerson do restaurante Ilhote Sul fundaram a Pizzaria Ilhote Sul onde o famoso artista plástico Marco Aurélio Franco fez sua primeira e única vernissage, o Bar do Wille onde rolava uma sinuca. Tinha o Pub, um bar localizado na Rua do Sacramento, onde hoje é um grande terreno baldio, era na esquina da minha casa, onde os amigos se reuniam para beber, comer e jogar dardo.

A Imbetiba era o point da juventude, tinha o trailer do querido Demerval onde saboreávamos o famoso Bira ou Bistrô, e jamais deixava alguém com fome, onde seu empregado educadíssimo o tesoureiro servia com o maior prazer. A barraca de Sorvete Sorriso do Sr. Boldrini, o bar Ralisco onde existe hoje o prédio da Petrobrás, ao lado tinha o Varandão do Sr. Edson e seus filhos, ao lado a Choupana das Rosas, que depois virou o a Danceteria Tucano, o famoso bar o Redondo, onde o Bloco carnavalesco, o Boi Paralipômeno, da Rua do Caixote, atrás do Caetano Dias saía no carnaval e fazia a concentração no bar do Sr. Barreto, meu querido e saudoso pai.

Ingresso da Danceteria Tucano.

Onde hoje é o Banco Itaú, existia o Cavern Club. Andávamos tranquilamente pelas madrugadas, éramos uma tribo só, e os famosos festivais do chop no Tênis Clube, bebíamos até cair na praça e acordávamos com o sol na cara ou algum conhecido nos levava para nossas casas e chamavam nossos pais. Uma vez, levei sozinho o querido Elvio Lins, o Vivico, filho do grande Sr. Hélio Lins.

Depois apareceu o Chaplins Bar a primeira casa noturna de Macaé, do saudoso Samuel Marques Bitencurt, conhecido por Bruce Lee, pois era faixa preta de Karatê e trouxe para nossa cidade os maiores músicos do Brasil e do mundo. O último show que presenciei foi do Márcio Montarroyos e Wagner Tiso, como era amigo íntimo do Samuel tinha minha mesa cativa, onde o grande médico e amigo Roberto Sales me fez companhia nessa noite, na outra mesa à família Cure, com Marcinho Cure e seus irmãos animadíssimos curtiam a melhor música instrumental. Na porta, seu fiel escudeiro e segurança o saudoso Goró, que obedecia Samuel como Bernardo obedecia o Zorro. Existia também o Barracão da Criação onde as bandas locais se apresentavam, o Fruto, Pão Pão Queijo Queijo e outras tantas que tínhamos na época.

Antes de existir o Partido Verde o PV, fizemos um abaixo assinado contra uma estrada que o prefeito da época queria construir ligando a Avenida Atlântica até a Praia do Pecado. Vicente Klosnoviski, irmão de Casimiro Klosnoviski, filhos da grande artista plástica Maria Klosnoviski esposa de Sr. Tadeu um Polonês gente finíssima, que eram meus vizinhos. O Vicente Klosnoviski, José Luís Boghi, de repente aparece o editor do jornal o Rebate nosso querido José Milbs, que entrou no caixão simbolizando o prefeito. O excelente fotógráfo Wanderlei Gil que tirou uma foto histórica e que se perdeu no tempo, ficando apenas nas nossas lembranças. Que pena!

Nenhum desses que dizem ser do PV estavam presentes nesse fato ocorrido, o ano era 1979 quando fizemos um protesto contra a Brastel que comprou a preço de banana o antigo e lindíssimo Cine Taboada. Segundo especialistas, tinha a segunda melhor acústica do Brasil, só perdendo para Teatro Municipal do Rio de Janeiro. No bar Mocambo da Imbetiba sempre estavam presentes os irmãos Valdeir e Cacilda uma mulata estilo as de Sargenteli, com sua ginga e malandragem que não devia a nenhum malandro da Lapa do Rio. A Deise, outra mulata freqüentadora do bar, com seu conjunto colante de oncinha, eram figuras carimbadas, difícil de encontrar.

Essa era a nossa cidade maravilhosa, onde brincávamos e bebíamos sem maldade, porque no outro dia, estávamos juntos sem mágoas ou raiva, pois éramos amigos, mais que isso, éramos irmãos. Quem tem menos dos “ENTA” nem imagina como era Macaé, de cidade turística. Passou a ser cidade industrial, o prefeito da época pensou que trazendo a Petrobrás para a praia da Imbetiba, o bairro seria valorizado, era para ser feito na Barra do Furado, e a Imbetiba piorou de vez, desvalorizando os imóveis, o progresso a destruiu.

Construção da sede da Petrobras na Imbetiba.

Hoje não podemos mais fazer amor no Hotel das Estrelas, que era na praia da Imbetiba, na praia do Pecado. Nos Cavaleiros só existia o Tênis Clube e uma casa onde funcionou por muito tempo uma sorveteria. Em cima residia a mãe do goiano, uma senhora muito culta, que sempre estava lendo seus livros na praia. Naquele tempo, passava as carroças deixando os litros de leite nos muros das residências, que os boêmios furtava m só de brincadeira. Os padeiros deixavam os pães nos muros também.

Depois o ex-presidente do STF, o saudoso ministro Evandro Lins e Silva, construiu sua belíssima residência, e me chamava para acompanhá-lo e sempre dizia, antes de fazer medicina, engenharia, arquitetura, odontologia, faça Direito Alessandro, você precisa saber dos seus direitos e obrigações. Ele sempre dizia isso antes ou depois do café, para bebermos um delicioso café da manhã, servido pela maravilhosa governanta, a saudosa Maria Helena, uma negra educadíssima e nas férias, seus netos Ranieri e Vítor passavam as férias, onde está situado o Confort Hotel.

Tudo acabou! Acabou o milho, acabou a pipoca! Hoje em dia não temos segurança nem dentro das nossas residências. Como diz um velho ditado árabe: “Confie em Alá, mas amarre o seu camelo.”

Alessandro Barreto. Acadêmico de Direito da Universidade Cândido Mendes

3 comentários:

  1. Antonio Pessanha - "Camelo"15 de junho de 2011 06:58

    Caramba, Barreto... lindo texto! Nostalgia... alegria... uma Macaé como essa, era tudo que eu queria!

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  2. Muito bom! relembrei a nossa macaé lendo este ótimo texto!
    Alexandre Benjamin

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  3. Voltei no tempo... Minha memoria olfativa, os amigos, o bar de praia 360, secos e olhados, rolling stones, clube ypiranga...

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